São Carlos recebe oficina do projeto Jovens Ativistas

Nos dias 14 e 15 de dezembro a cidade de São Carlos recebe a oficina de formação do projeto Jovens Ativistas. O Projeto é uma iniciativa da ONG APV, em parceria com a Coordenação Estadual de DST/AIDS de São Paulo e tem como objetivo a formação de jovens militantes LGBT para atuação no controle social de políticas de prevenção às DST/AIDS e de direitos humanos.

Dados recentes do Ministério da Saúde apontam um recrudescimento dos casos da epidemia entre jovens gays, alertando para a necessidade de maior envolvimento dessa população no combate e na promoção de ações de prevenção.

O conteúdo da oficina, nesse sentido, abrange temas como sexualidade e gênero, estado e democracia, políticas públicas e controle social, abordado por especialistas e ativistas de reconhecida atuação no cenário nacional. As oficinas do projeto já passaram por São José do Rio Preto, Mauá, Ilha Solteira e outras cidades.

A atividade será realizada na sede da ONG Visibilidade LGBT e conta com parceria com a Aliança Paulista LGBT.

Mais informações sobre a atividade na cidade de São Carlos podem ser obtidas com a ONG Visibilidade LGBT (16)34167559 ongvisibilidadelgbt@gmail.com ou com a coordenação do Projeto (17) 30336455, (17) 88015778 e correio eletrônicocontato@apvsp.org

Programação

Abertura – 14/12

19h – local: Instituto Cultural Janela Aberta – Rua Conde do Pinhal, 2340 – Centro

Mesa de abertura:
Phamela Godoy – ONG Visibilidade LGBT

Julian Rodrigues – Aliança Paulista LGBT/ Conselheiro Nacional LGBT

Alessandro Melchior – APV/ Conselheiro Nacional de Juventude

Palestra: Políticas para juventude – Alessandro Melchior

Formatura dos alunos do Ponto de Cultura, Visibilidade Cultural: Arte, Diversidade e Cidadania

Exposição dos produtos do Ponto de Cultura

Lançamento do Curta: O amor que não ousa dizer seu nome

Confraternização

Sábado 15/12 – Local: Sede da ONG Visibilidade LGBT – Rua Antonio Frederico Ozanan, 1399 – Redenção

10h- Café da Manhã

10h30 Gênero, Orientação Sexual e Identidade de Gênero – Regina Facchini

12h Almoço

13h – Juventude, Movimentos sociais, ativismo LGBT e políticas públicas – Julian Rodrigues

15h30- Vulnerabilidades e enfrentamento HIV/AIDS – Lula Ramires

17h – Incidência política, controle social e agenda programática – Phamela Godoy

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Política do Arco-Íris: Um Brasil para todos ou uma república cristã?

Por Julian Rodrigues*, publicado em 05/03/2012 às 18h34, na coluna Política do Arco-Íris, do site A Capa.

A ascensão fulminante do fundamentalismo religioso na esfera pública e de sua influência crescente sobre as políticas públicas constituem uma ataque à democracia.

Geralmente julgamos os discursos cristãos obscurantistas apenas como mera obsessão contra direitos LGBT ou das mulheres. Infelizmente, é muito mais do que isso.

Os evangélicos neopentecostais há tempos se consolidaram como força eleitoral e partidária, principalmente a partir de sua presença massiva na televisão, ocupando concessões públicas. Sua pauta reacionária prioriza impor aos governos o ensino religioso obrigatório, o veto às políticas de promoção da cidadania LGBT e também aos direitos sexuais e reprodutivos das mulheres. Atuam sem timidez, elegendo cada vez mais vereadores, deputados estaduais , federais e senadores.

Os católicos, liderados por Ratzinger, assistem há anos sua igreja guinar à direita incessantemente. Hoje a hegemonia na cúpula da CNBB é de bispos hiper-conservadores. O prestígio está com os galãs padres midiáticos, que mimetizam os métodos dos pastores televisivos.

A campanha eleitoral de 2010 abriu um novo período. A influência cristã fundamentalista ganhou espaço e se instituiu como espécie de “consciência” do Estado, principalmente do governo federal.

O debate sobre o direito das mulheres decidirem sobre seu próprio corpo foi estigmatizado, totalmente interditado. As conquistas crescentes que o movimento LGBT vinha consolidando foram colocadas sob fogo cruzado.

Serra cavalgou, em 2010, a ideologia cristã mais reacionária: usou e abusou do tema do aborto. Dilma ficou refém desses setores e fez compromissos públicos que, hoje vimos claramente, bloqueiam a agenda feminista e LGBT.

Bancada evangélica
E o obscurantismo mostra mais suas garras, porque se sente mais forte. Do projeto de lei João Campos (PSDB-GO), que visa revogar a proibição de terapias que visem “curar gays”, até o ataque ao ministro Gilberto Carvalho, que em atitude patética se viu obrigado a pedir perdão à bancada evangélica – a desenvoltura do fundamentalismo é crescente.

Digna de nota é a posição conservadora da presidenta Dilma. Além de não receber o movimento LGBT e não comparecer à Conferência Nacional que discutiu as políticas para a população, ela vetou propaganda do Ministério da Saúde, que mostrava dois jovens gays se abraçando. Isso para não mencionar o já conhecido veto ao projeto “Escola sem Homofobia”, que continua nas catacumbas.

É fácil apedrejar a presidenta – uma reação natural e compreensível. Mais complexo é refletir sobre o “estado geral da arte” e articular estratégias para garantir a laicidade estatal. Afinal, política é correlação de forças. Um processo objetivo.

2012 é momento de eleger prefeitos/as e vereadores/as. Os religiosos homofóbicos já estão em campo a chantagear candidatos e bloquear a direitos LGBT.

E nós? Vamos assistir a tudo sem nada fazer?

Articular um movimento nacional – amplo, enraizado, plural – em defesa do ESTADO LAICO é o desafio colocado. A discussão é supra-partidária. Modernidade ou idade média?

Não se trata somente dos direitos LGBT. Trata-se da democracia, do pluralismo, dos direitos humanos. Trata-se da possibilidade de construir um país que seja, de fato, de todos e todas.

(Antes que seja tarde).

*Julian Rodrigues é ativista do grupo Corsa, da Aliança Paulista LGBT e da ABGLT

Política do Arco-Íris: A escalada conservadora

Artigo de Julian Rodrigues para o site http://www.acapa.com.br

Os fatos se sucedem com impressionante velocidade. Há poucos dias, assistimos propaganda política do Partido Social Cristão(PSC) . Nela, somos informados que “família” é definida como a soma de “amor + homem + mulher”. Ou seja: um partido político que tem já em seu nome uma religião  – e não uma ideologia – usa boa parte do  tempo de rádio e TV que lhe cabe para atacar milhões de famílias que não se enquadram no modelo ideal defendido pela sigla. Enquanto isso, crescem os assassinatos de LGBT e os ataques violentos em plena região da Avenida Paulista.

“Humoristas”  e colunistas  badalados  por certa mídia se especializam em criar piadas ofensivas, racistas, homofóbicas, sexistas. Se orgulham em desprezar solenemente a luta histórica das mulheres, negro/as, judeus, gays e  pessoas com deficiência contra o estigma e a discriminação. Às vezes, são tão absurdos que são tirados do ar, como o tal Rafinha Bastos.  São a face mais visível de um crescente sentimento  neoconservador (neocon),  presente em amplos setores das classes médias, “intelectualizados”, conectados,cool. São os que  deitam e rolam nas redes sociais – como vimos no episódio do câncer de Lula e na campanha preconceituosa que defendia que ele fosse se tratar  no SUS.

Ao mesmo tempo, temos o fundamentalismo cristão, sobretudo evangélico. Cada dia mais forte, os neopentecostais querem construir um “Brasil cristão”. Confundem religião com política, deliberadamente.  Tem um projeto de poder. Misturam templo com parlamento. Usam rádios e TVs para propagar não apenas opiniões teológicas, mas, sobretudo, posições político-ideológicas. Uma agenda conservadora, lastreada no repúdio aos direitos LGBT e nos direitos sexuais e reprodutivos das mulheres. Na política, são fisiológicos, tendem a apoiar qualquer  governo – daí sua força. Estão concentrados em siglas como o PR, o PRB, o PTB, o PMDB,  o DEM. Mas aumentam sua força no PSDB e mesmo no PT e PCdoB.

De outro lado, cresce a repressão estatal aos movimentos sociais e o apoio desses mesmos setores das “classes médias” a essa política autoritária. São Paulo é  o laboratório e vanguarda dessa nova política do “prendo e arrebento”. A Polícia Militar na USP seria impensável há poucos anos atrás. A prisão de estudantes em campi universitários porque portavam maconha seria absolutamente improvável, em qualquer lugar do Brasil, em qualquer tempo. Desocupação de reitoria com força de choque da PM  não seria  trivial  nem na ditadura. A maioria da mídia apoiou essa escalada repressiva.

Ao invés de abrirmos um debate nacional sobre uma nova política de drogas – realista, não hipócrita, fora do escopo do proibicionismo – como corajosamente propôs até uma grande liderança conservadora, como FHC, aplaudimos ações repressivas das polícias, que nada mais fazem do que enxugar gelo e “jogar para a galera”. Alimenta-se o pânico moral com relação ao crack, por exemplo. Tudo para justificar mais polícia, mais repressão. Ou a patologização  definitiva de um complexo problema social.

É nesse cenário, de escalada do neoconservadorismo e do fundamentalismo cristão, que devemos situar a luta pelos direitos LGBT. Não se trata de um tema singular, singelo, específico. Nossa causa é parte de uma agenda progressista, laica, que amplia as liberdades e a democracia.  E que carece, portanto, de se conectar com a luta das mulheres pela legalização do aborto, à luta do movimento negro por reconhecimento, à luta da juventude pela legalização da maconha, à batalha do movimento de direitos humanos pelo direito à memória e à verdade, à luta de diversos setores pela garantia da liberdade religiosa e da  laicidade do Estado – entre tantas outras.

O movimento LGBT não conseguirá vencer  os homofóbicos profissionais como Silas Malafaia –  que incita o ódio em cadeia nacional toda semana e agora ameaça Toni Reis, presidente da ABGLT – se não nos articularmos firmemente  em uma ampla coalizão.

Progressistas de todas as tribos, uni-vos.

Reconhecer e combater a escalada da intolerância e do conservadorismo é urgente. Antes que seja tarde demais.

*Julian Rodrigues é ativista LGBT da Aliança Paulista e da ABGLT e membro do Conselho Nacional LGBT.

Corsa não admite ativista agressivo em capacitações do Tecendo Laços

 

NOTA PÚBLICA

O CORSA – Cidadania, Orgulho, Respeito, Solidariedade e Amor, entidade de defesa dos direitos da população LGBT sediada na cidade de São Paulo, vem a público esclarecer que, no bojo do Projeto Tecendo Laços, nossa entidade tem percorrido diversos municípios do Estado de São Paulo com o intuito de promover capacitações de atuais ou potenciais lideranças LGBT nas temáticas dos Direitos Humanos e das Políticas Públicas. Nossas atividades são públicas e abertas, pois são financiadas com recursos do Governo Federal. Contudo, assumimos a prerrogativa de não admitirmos em nossas oficinas e palestras pessoas que sabidamente apresentam histórico de agressões físicas contra membros de nossa Diretoria.

Projeto Tecendo Laços – Identificar e promover capacitação para lideranças LGBT em Direitos Humanos no Estado de São Paulo é o intuito maior do projeto Tecendo Laços, desenvolvido pelo Corsa desde maio de 2010. Para isso, o projeto leva militantes experientes e especialistas ligados à temática para dialogar com pessoas interessadas em conhecer melhor e se juntar ao movimento LGBT. São apresentados formulações conceituais básicas como identidade de gênero, orientação sexual, heteronormatividade e homofobia. No âmbito local, o projeto visa incentivar a criação ou fortalecer a formação de grupos e entidades (ONGs) que atuem na defesa dos direitos da comunidade LGBT em suas regiões.

O projeto tem caráter itinerante e já passou pelos municípios de Embu das Artes, São Carlos, Rio Claro, Limeira, Jandira, Jales, Taboão da Serra, Guarulhos, Presidente Prudente, São Bernardo do Campo, Araras, Sorocaba. O próximo destino será Sertãozinho e São Vicente, e no início do próximo ano estará em Mauá e Osasco.

Lula Ramires
Coordenador-Geral do CORSA
www.corsa.org.br

CONTARDO CALLIGARIS, na revista Trip

O psicanalista explica: por que a homossexualidade incomoda tanto?

Revista Trip 204| Texto por Lia Hama

De onde vem a homofobia? Como funciona o preconceito de quem acha que não o tem? Para responder a essas e outras perguntas, convocamos o psicanalista Contardo Calligaris – que sonha com um tempo em que ser homo, hétero ou bi não seja fundamental para definir nossas identidades

Contardo Calligaris é um homem acostumado a temas espinhosos. O psicanalista italiano de 63 anos, nascido em Milão e radicado em São Paulo, assina colunas toda quinta-feira na Folha de S.Paulo, e a trinca sexo, amor e relacionamentos é uma de suas constantes. Nesta edição de Trip dedicada à diversidade sexual, convidamos o terapeuta para refletir sobre por que, afinal, a homossexualidade provoca tanto incômodo. “Ninguém se incomoda com algo a não ser que isso seja objeto de um conflito interno. O homofóbico tem dificuldade em conter traços de homossexualidade que estão dentro dele”, responde Contardo. Segundo o psicanalista, as piadinhas sobre gays, tão comuns nas rodas de homens, celebram um laço que, no fundo, é homossexual. “Ninguém conta uma piada de veado para uma mulher, porque para ela é uma coisa totalmente ridícula. Ela vai virar e dizer: ‘Hein?’.”

Na entrevista a seguir, Contardo aponta para o enorme preconceito contra gays e lésbicas que ainda persiste no Brasil, fala sobre o papel das novelas na formação da opinião pública e defende a aprovação da lei que criminaliza a homofobia. “Essa garantia legal é crucial”, afirma. O psicanalista sai em defesa do “politicamente correto”, que, aqui, não funciona como nos EUA. “Lá, alguém como o [deputado federal Jair] Bolsonaro já estaria na cadeia há muito tempo”, acredita. Seu desejo, diz, é que a sociedade avance para um estágio em que se possa viver livremente de forma “junta e misturada”, ou seja, em uma realidade na qual ser heterossexual ou homossexual não seja tão importante para definir as nossas identidades.

Por que a homossexualidade incomoda tanto?
Vários psicanalistas e psicólogos já formularam sobre isso. Existe quase uma regra que quase nunca se desmente na prática. Quando as minhas reações são excessivas, deslocadas e difíceis de serem justificadas é porque emanam de um conflito interno. Por que afinal me incomodaria meu vizinho ser homossexual e beijar outro homem na boca? De forma simples, o que acontece é: “Estou com dificuldades de conter a minha própria homossexualidade, então acho mais fácil tentar reprimir a homossexualidade dos outros, ou seja, condená-la, persegui-la e reprimi-la, se possível até fisicamente porque isso me ajuda a conter a minha”. O problema de toda neurose é que a gente reprime muito mais do que precisa. A neurose multiplica a repressão. Se eu tenho uma vaga impressão de que eu poderia ter uma atração por um colega de classe, então acabo construindo uma série de comportamentos que me convençam de que não só não tenho atração nenhuma como eventualmente posso chamar esse colega de veado, criar um grupo de pessoas que compartilham daquela opinião e esperar ele sair da escola para enchê-lo de porrada.

O homofóbico necessariamente é um gay enrustido?
Eu não diria que é um gay enrustido. A homofobia responde a uma necessidade de reprimir uma parte da sexualidade, mas não significa necessariamente que essa pessoa seja homossexual. É alguém que está reagindo neuroticamente a traços de homossexualidade que estão em cada um. Isso já é suficiente para criar a homofobia.

A sociedade brasileira ainda é muito preconceituosa? O politicamente correto mascara isso?
O politicamente correto no Brasil é muito precário se comparado ao dos Estados Unidos. Aqui as pessoas se autorizam a dizer coisas que lá seriam impensáveis. O Bolsonaro já estaria na cadeia há muito tempo. Não tenho nada contra o politicamente correto, mesmo os seus excessos, porque não estou convencido de que as falas sejam inocentes. As piadas de discriminação deveriam ser proibidas. Deveria ser possível agir legalmente contra isso. Mas, sim, acho que a sociedade brasileira ainda é fortemente preconceituosa. O engraçado é que as formas mais triviais de preconceito se expressam em grupos que acabam sendo homossexuais. O clássico é a piada de veado, que faz todo mundo rir e ocorre numa roda de homens na padaria. Esses homens celebram rindo um laço entre eles que, no fundo, é homossexual. Os quatro skinheads que saem à noite para dar porrada na praça da República substituem o que seria uma homossexualidade neles batendo em quem eles supõem ser homossexual.

Você é a favor da lei que criminaliza a homofobia?
Sou totalmente a favor. Incitar o ódio e a exclusão não dá. A liberdade de expressão não justifica ir contra direitos fundamentais.

Como funciona o preconceito das pessoas que dizem não ter preconceito? Como reagem pais que se consideram esclarecidos quando descobrem que o filho é gay?
No caso dos pais, tem uma parte da reação que não é necessariamente homofóbica. Há um sentimento de perda e preocupação. Eles presumem que não terão netos, isso é uma perda. Eles têm uma apreciação realista da sociedade. Pensam: “Se o meu filho for gay, a vida dele será mais dura. Não poderá viver em qualquer lugar, vai ter que morar em grandes metrópoles. Quando for alugar um apartamento, talvez encontre um dono que não vai gostar de saber que ele vive com outro homem. Uma noite pode estar na praça da República e ser agredido. Quando for fazer a queixa na delegacia, pode ouvir que, se não fosse veado, isso não teria acontecido. Vai trabalhar numa multinacional e todo mundo vai ter a foto da mulher ou do marido em cima da mesa. Ter a foto de alguém do mesmo sexo provavelmente não vai contribuir para o progresso da carreira dele. Enfim, haverá uma série de limitações”. Pode ser que para nossos filhos e netos isso evolua, mas a realidade hoje é essa.

Esses pais se culpam? Perguntam: “Onde foi que eu errei?”
Hoje muito menos, o que prova que a homossexualidade está sendo menos considerada como patologia do que no passado. A homossexualidade é produzida por uma série de coisas complexas, algumas, aliás, não têm nada a ver com o tipo de criação que a pessoa recebeu. Responsabilizar os pais é algo grotesco. Agora, nos anos 70, sim. Eu atendi pais que se recusavam completamente a aceitar que os filhos eram gays. E tive pacientes homossexuais que tinham perdido o contato com os pais a partir do momento em que saíram do armário.

Como você vê a representação dos gays nas novelas?
A existência de gays como personagens positivos ou simplesmente aceitos tem um efeito importante. A novela das nove é a grande formadora de opinião no Brasil. Às vezes tem até uma capacidade de antecipar e transformar a visão sobre as coisas. Nem sempre o que aparece nas novelas é porque os brasileiros mudaram. Às vezes os brasileiros mudam porque apareceu na novela. É pequena a antecipação, mas ela existe. A novela pode se propor a escandalizar um pouco, permitir que as pessoas pensem um pouco além do que elas pensavam antes.

Homossexualidade é genética ou construída? Ou nem cabe mais essa questão?
É um debate aberto. O que todo mundo sabe hoje é que a genética não é o destino de ninguém. Mesmo que existisse um gene da homossexualidade, que, se existe, ainda não foi encontrado, ele precisaria ser posto em ação. Os nosso genes se realizam ou não a partir de uma série de questões relacionadas ao ambiente – geofísico e humano. Imaginar que exista uma separação rigorosa entre o genético e o construído é ingênuo. As coisas se misturam. O grande argumento a favor da tese de que é genético é que existem pesquisas com gêmeos que mostram que, em univitelinos, se um é homossexual a maioria dos irmãos também é. Algo em torno de 60%. Agora, isso é um argumento a favor da tese? Na verdade, é um argumento contra porque, se são univitelinos, deveria ser 100%, já que o patrimônio genético dos dois é rigorosamente igual. O caso é interessante porque mostra que a coisa é mais complexa.

 

“O gênero não é o mais importante para definir a sexualidade de alguém. A fantasia define muito mais”

 

Crianças criadas por casais homossexuais sofrem de dificuldades específicas? Seu desenvolvimento é diferente do de crianças de casais heterossexuais?
Isso já está totalmente estabelecido. Há um campo de pesquisas importante nos EUA e em alguns países da Europa, onde já há um bom tempo os casais homossexuais foram autorizados a adotar crianças. Está absolutamente claro que as estatísticas, tanto do futuro da vida sexual dessas crianças como da patologia eventual delas, são absolutamente idênticas às das crianças criadas por casais héteros. Acho que isso não deveria nem mais ser tema de conversa. Porque os resultados estão lá, são conhecidos.

O preconceito é maior em relação a casais de homens que desejam adotar filhos?
É possível. Até porque um dos grandes mitos da homofobia é que as pessoas, sobretudo as mais ignorantes, confundem homossexualidade com pedofilia. Então elas perguntam: “Mas como um casal de homossexuais masculinos vai adotar crianças? Eles vão estuprá-las”. E a pedofilia pode ser totalmente heterossexual.

Você já sentiu atração por homens? Teve vontade de beijar e transar com um homem?
Não, atração nesse sentido não… Mas cresci nos anos 60, uma época de amor livre. Tudo aquilo era bastante aberto e misturado.

Deu para experimentar bastante coisa?
Sim.

Você já questionou a sua orientação sexual?
Questionar a orientação sexual já é em si um problema porque, no fundo, eu não acredito muito nessa distinção entre homossexual e heterossexual como um divisor de águas. Do ponto de vista da personalidade de alguém, é um fato muito marginal. Muito mais do que se ela transa com pessoas do mesmo sexo ou não, o que define uma pessoa é a fantasia sexual com a qual ela funciona. Um homossexual cuja sexualidade é alimentada numa fantasia sadomasoquista tem muito mais a ver com um heterossexual com fantasia parecida do que com outro homossexual que, ao contrário, gosta de transar ternamente, dando beijinhos. O gênero não é o mais importante para definir a sexualidade de alguém. A fantasia define muito mais.

Há quem diga que no futuro as pessoas vão se relacionar independentemente do gênero. Seria tudo meio “junto e misturado”. Você concorda com isso?
Eu preferiria que fosse assim. A homossexualidade se tornou uma identidade necessária para tempos de luta. Nos últimos 30 ou 40 anos e certamente nas próximas décadas ainda terá que se afirmar para que haja uma paridade de direitos real e concreta. Mas, uma vez retirada essa necessidade de luta, não sei se a escolha de gênero do objeto sexual será o mais importante para definir a identidade de alguém… Sou homossexual ou sou heterossexual. Sim, e daí? Good for you. Não sei se verei esse novo mundo, mas espero que isto aconteça: que essa identidade se torne insignificante, pois não será tão necessária.

Aliança elege com feministas maioria dos delegados à 2ª. Conferência Nacional LGBT

A chapa Aliança Feminista Contra A Homofobia teve a maior votação da 2ª. Conferência Estadual LGBT de São Paulo com 39% do total de votos válidos. A chapa resultou da soma de esforços da Aliança Paulista LGBT com outros grupos e ativistas independentes, que incorporou a contribuição das militantes da Marcha Mundial das Mulheres (MMM) e da Liga Brasileira de Lésbicas (LBL).

Com militantes do Corsa, a chapa obteve 106 dos 272 votos válidos da sociedade civil para a eleição de delegação paulista à II Conferência Nacional LGBT.

Construção da unidade

O coordenador do Corsa, Lula Ramires, destacou que a chapa recebeu mais votos que chapas como aquela que juntou a Conexão Paulista, o Fórum Paulista, o Fórum Paulista de Juventude LGBT, o E-Jovem, o Núcleo LGBT da CUT, entre outras forças. “É com um gostinho de dever cumprido e uma pontinha de orgulho que chegamos ao final desta Conferência”, comemorou Ramires.

Para Ramires, o fato da chapa Aliança Feminista Contra A Homofobia sagrar-se como a maior força política organizada na conferência é fruto de um longo trabalho liderado pelo Corsa, pelo Visibilidade LGBT  de São Carlos e pelo Diversitas de Taboão da Serra. “Envolveu contatos e visitas, oficinas e capacitações, muita conversa por e-mail, MSN, Facebook, Skype ou telefone… É fruto da confiança nascida de uma estreita colaboração e apoio mútuos”, avaliou o militante.

Ramires acrescenta ainda que essa unidade construída também agrega uma grande responsabilidade: “Manter nossa rede unida e atuando tanto nas localidades onde residimos quanto no âmbito estadual”.

“Não poderemos mais ser desconsiderados pelo Governo Estadual que inclusive nem permitiu que acompanhássemos a Comissão Organizadora nem sequer como observadores”, enfatizou.

Ele antecipa que a aliança formada deve esforçar-se agora para, ir a Brasília, sem perder de vista, desde já, os esforços para a participação conjunta nas atividades do Dia 8 de Março do ano que vem, quando celebra-se o Dia Mundial de Luta das Mulheres.

Delegação

A representação eleita pela chapa ficou, então, com 10 d@s delegad@s, dentre @s 27 a que o Estado de São Paulo tem direito, sendo 6 identidades femininas e 4 masculinas, assim composta:

Identidades femininas: Phamela Godoy (São Carlos), Mariana Rodrigues (LBL/SP), Lúcia Castro (Campinas), Eliane Vieira (S.J. do Rio Preto), Salete Campari (S. Paulo) e Fernanda Estima (S. Paulo).

Identidades masculinas: Julian Rodrigues (S. Paulo), Wanderley Bressan (Taboão da Serra), Hélio Cruz (Presidente Prudente) e Marcelo Hailer (S. Paulo).

Nota de Repúdio da Aliança Paulista LGBT

A Aliança Paulista LGBT – rede que congrega grupos e ativistas que lutam diariamente contra a homofobia, provenientes de vários pontos do Estado de São Paulo – vem a público manifestar sua total perplexidade e rechaço diante das violentas agressões físicas ocorridas ao final da II Conferência Estadual LGBT no último fim de semana.

Num momento em que estávamos radiantes de felicidade pelo coroamento de nosso trabalho de base, empreendido há mais de dois anos, através de inúmeras visitas e encontros de capacitação, voltado ao aprimoramento das discussões sobre Direitos Humanos e Políticas Públicas LGBT, fomos surpreendidos com agressões gratuitas de militantes (ou seriam “militantes”?) que, por não conseguirem convencer aos demais por argumentos, partem para a violência como forma de impor sua maneira de ver o mundo.

Julian Rodrigues, que liderou a formação da chapa “Aliança Feminista contra a Homofobia”, que obteve quase 40% dos votos na eleição da delegação paulista à II Conferência Nacional LGBT, recebeu covardemente um tapa na cara que deixou perplexos todos aqueles que estavam próximos dele pelo caráter inusitado e absurdo da cena. Ao reagir instintivamente contra a agressão descabida, Lula Ramires segurou o braço da agressora para detê-la e esta, totalmente enfurecida, ameaçou revidar sendo então protegido por Lucia Castro, que o abraçou por trás e o puxou. Ao perceberem o ocorrido, Fernanda Estima – também integrante da chapa vitoriosa – e sua companheira Juliana Lora de Sá acorreram para defender Julian, no que receberam empurrões e tapas de lésbicas de outra chapa, que provocaram vários ferimentos em seus braços. O mesmo ocorreu com Mariana Rodrigues, também eleita delegada pela chapa. Mais tarde, outras ameaças foram feitas a Phamela Godoy, cabeça da chapa, e a mesma teve que sair escoltada do local do encontro.

Ao repudiarmos veementemente esta lamentável violência física que, atingindo a três companheiras e um companheiro de nossa articulação política, tinha na verdade por intenção “desmoralizar” o conjunto de forças que compôs a chapa “Aliança Feminista”. É inaceitável que pessoas que se dizem defensoras da população LGBT, tão humilhada por constantes atos de discriminação cotidiana, se valham das mesmas atitudes para com outras e outros militantes da mesma causa. Com esse gesto, sai perdendo a nossa comunidade como um todo.

A Aliança Paulista LGBT se esforça com vistas à organização dos segmentos mais fragilizados que exigem de nós um olhar diferenciado, até por estarmos cientes das vulnerabilidades resultantes da classe social, da bagagem cultural e da escolaridade. Estamos e sempre estaremos abertos ao diálogo e à construção coletiva, com espírito democrático e ético.

Nos últimos meses temos percorrido o interior, o litoral e a região metropolitana do Estado de São Paulo, fazendo oficinas, reuniões, capacitações… abrindo mão inclusive de boa parte de nossas vidas pessoais, da convivência com nossos familiares e amigos, em nome do ideal de tornar o movimento LGBT cada vez mais massivo, mais mobilizado, mais politizado e, portanto, mais fortalecido. Os votos que obtivemos – oriundos de mais de uma dúzia de municípios paulistas – são a prova inequívoca do acerto de nossas ações. Por isso, não são agressões físicas que irão nos fazer abandonar uma luta à qual temos dedicado o melhor de nós e que nos fazem reconhecidos como importante força política em âmbito regional e nacional.

Articulando a luta contra o machismo e o racismo (e temos muito orgulho de ver nossa chapa sendo apresentada por uma lésbica negra da periferia), enfrentamos a homofobia sem perder de vista que a sociedade nova que pretendemos construir pressupõe a justiça, a igualdade, a liberdade e a solidariedade. Só assim, TODAS  as formas de violência e privação de direitos serão superadas.

Aliança Paulista LGBT

01 de novembro de 2011